Este poema foi escrito por Artur da Távola que o enviou a um primo meu. Este sem entendê-lo pediu que eu interpretasse o mesmo. Eu o fiz e meu primo,depois de pedir minha permissão enviou ao poeta. Logo a seguir, ao checar minha caixa de mensagens deparei-me com um e-mail do próprio Artur da Távola que muito me deixou feliz. Hoje, dia 13 de dezembro de 2011 completam-se 10 anos da morte de Cássia Eller e eu me lembrei deste fato. Por isso transcrevo, o poema, minha interpretação e o e-mail que recebi como uma homenagem à cantora, a Artur da Távola e a alegria que senti ao receber o e-mail dele a quem eu muito admirava como poeta.
CÁSSIA ELLER
"Viva lascívia por ínvio matagal
A vibrar sensações maiores que o sentir.
Menina barafunda
De casto olhar secreto,
Travesso animal confuso,
A bufar hormônios de contradição.
Lindafeia homulher
Timida e tinhosa
Punhos de lutador
Olhar de pantera doce
Mutante forte e indefesa
Unhas de (se) ferir e gozar.
Rascante canto de saliva e espanto
Pedaço de pano velho
Rasgado e pueril
Desafio desencapado
Cusparada na lógica
Emocionado trovão
Imarcescível velha
De dezoito anos,
Imponderável ser
De lentilhas e pimentas.
Canoro e impossível felino
Lírio de amarguras.
Escarro e esbarro
Feitos doçura azeda
Na verdade de seu olho bom
De um mel sem dulçor
Berro de sussurros
Densos e tristes
Deusa mendiga
De maldições e beatitudes
Mistério humano, desafio espelho
De nossa grotesca condição
Indefinível cróton seminal
Dor de existir
Sem suportar a existência"
ARTUR DA TÁVOLA
MINHA INTERPRETAÇÃO
Oi Bubi,
Em primeiro lugar, obrigada pelo presente porque sou fâ do poeta Artur da Távola. Agora vamos ao que me pediu: minha humilde opinião. Para mim não se trata de um julgamento contra ou a favor de Cássia Eller porque ele faz uma descrição intercalada, sua maneira irreverente e polêmica de ser, mas ao mesmo tempo mostra o que talvez ela mesma quisesse ocultar, mas que aos olhos de um poeta sensível como ele não conseguiu fazê-lo.
No primeiro verso: apesar de toda a aparência bruta e pouco feminina ele a sentia casta (na alma), extremamente confusa e por isso, infantil.
No segundo verso: do mesmo modo ele intercala as duas sensações porque ela era uma mulher bonita , se realmente fosse uma mulher no sentido feminino de ser. De aparência forte, mas frágil até porque todo gay transmite fragilidade pelo simples fato de ter se tornado gay. Embora eles acreditem que são corajosos em desafiarem a sociedade, na verdade muitos, senão a totalidade, são gays porque são exageradamente frágeis.
No terceiro verso: ele analisa seu comportamento e sua atitudes homosexuais. A maneira por vezes até grosseira como ela mostrava sua opção, mas mais uma vez, não vejo como crítica porque ela mesma fazia questão de ser assim. Um bom exemplo foi sua apresentação do Rock`n Rio, quando levantou a blusa e mostrou os seios em uma atitude até agressiva à imagem da mulher. Pelo menos eu senti assim.
No quarto: a idéia das contradições nela mesma continua, mas ele justifica dizendo "lírios de amarguras" querendo dizer que, apesar de toda a máscara ela era uma flor amargurada e infeliz.
No quinto reitera dizendo que ela era boa.
No sexto e último: Apesar da fama era mendiga porque era infeliz...."de maldições e beatitudes..." porque todos nós temos um lado bom e ruim "...mistério humano..."porque é uma condição inerente ao ser humano ser bom e ruim e que nem por isso ele se espelha nela como qualquer um também poderia fazê-lo e por fim que o conflito em que ela vivia fez com que não suportasse mais viver. Bem, ela não morreu de overdose, mas, com certeza não gostava de viver. Tinha depressão. Já havia se drogado muito para fugir dos problemas etc.
Espero ter ajudado em alguma coisa.
Mais uma vez, obrigada!
Beijinhos,
Fafá
E-MAIL QUE O ARTUR DA TÁVOLA ME ENVIOU.
"Fátima, recebi, via Becker, a análise eu diria pefeita e percuciente feita por você de meu modesto poema. Infelizmente neste momento escrevo a correr pois muito gostaria de trocar idéias com uma sensibilidade como a sua, que adivinho especialíssima. Curioso. Elaboro deveras, meus poemas. Às vezes dormem meses e até anos no limbo. Esse saiu de uma vez. Parecia mais inscrito que escrito."
Gratíssimo e feliz.
Escreva de vez em quando. E envie poemas seus.
Pax Crhisti
Távola
Artur da Távola"